Mais um caso de violência contra a
imprensa no interior da Bahia vai parar na delegacia, evidenciando o clima de
insegurança que ameaça profissionais do setor, em todo o estado. A cidade da
vez é Jeremoabo. O repórter Davi Alves denuncia que foi vítima de agressão
física enquanto realizava uma reportagem no município da Mesorregião do
Nordeste Baiano. Alves atua na Rádio Alvorada FM, em um programa da ONG
Transparência Jeremoabo, conhecido na região por fiscalizar a administração
municipal.
No último dia 16, ele filmava uma
obra no bairro José Nolasco, em Jeremoabo, mas teve a cobertura interrompida. O
repórter alega ter recebido denúncia de que recursos públicos estariam sendo
empregados em obras particulares. Já no local, ele flagrou um funcionário da
prefeitura levando materiais para dentro de um imóvel. No vídeo ao qual a reportagem
da Associação Bahiana de Imprensa (ABI) teve acesso, Davi Alves pergunta à
proprietária se poderia entrar e ela o convida. A partir daí a filmagem é
cortada pela confusão.
“Ao realizar a filmagem, fui
surpreendido pela agressão sorrateira do secretário de Infraestrutura e Obras,
João Batista dos Santos Andrade, popularmente conhecido por Tista Andrade.
Levei um soco forte na parte lateral da nuca. Quase desmaiei”, denuncia. “Ele
me agrediu com socos e pontapés, inclusive pelas costas, impossibilitando a
minha defesa. Funcionários se juntaram a ele nas agressões. Eu tentei me
defender como pude. Ele tem que respeitar nossa imprensa, estamos em uma
democracia”, relata Alves.
À ABI, João Batista Andrade negou
as agressões contra o repórter e deu a sua versão sobre o vídeo do momento em
que Davi é golpeado e o celular cai. “Eu não o atingi por trás, inclusive, ele
me acertou primeiro. Eu estava acompanhando o trabalho da equipe na construção
da praça do bairro José Nolasco, quando esse cidadão que se diz repórter chegou
e começou a gravar um vídeo sensacionalista, buscando denegrir (sic) a imagem
da gestão atual com palavras pejorativas”, argumentou. “Ora, se existia uma
‘denuncia’ como ele diz e o responsável estava presente no local, por que ele
não buscou primeiro informações sobre o caso?”, indagou. Segundo ele, Davi
abriu o vídeo classificando a gestão municipal como “desastrosa, incompetente”.
“O que sei é que quando fui
procurá-lo para questionar sobre o vídeo, ele me afrontou, aparentemente
alcoolizado e buscando problemas. Veio para cima de mim. Eu, como qualquer
pessoa, apenas me defendi. Vale ressaltar que também fui agredido, tendo no
boletim de corpo de delito (consulte aqui) ferimento no nariz, dedo anelar da
mão direita e escoriações nos braços”.
Questionado se teria provas de que
o repórter estava sob o efeito de álcool, ele respondeu: “Está no laudo do
médico que atendeu ele e várias testemunhas do hálito forte de álcool. Você
sabe que, pela Lei Seca, não é necessário exame, apenas testemunhas da
situação”, disse. O exame de Davi Alves, no entanto, não confirma essa informação.
O secretário revelou ter acionado a justiça contra Davi Alves.
O caso provocou o repúdio da
Associação Brasileira de Imprensa (ABI). A entidade publicou no dia seguinte à
agressão uma nota na qual “condena, com veemência, a agressão sofrida pelo repórter”.
A ABI enviou ofícios ao secretário da Segurança Pública da Bahia, Maurício
Barbosa, e ao prefeito de Jeremoabo, Derisvaldo José dos Santos, cobrando a
apuração da violência contra Davi Alves e a adoção de medidas para garantir a
liberdade de expressão naquela cidade.
Por: Joseanne Guedes - ABI
